quarta-feira, 13 de junho de 2012

A tirania do corpo perfeito - Ser bonito e estar em forma é o exame admissional para a vida social.


Escrevendo sobre Cultura Corporal e Mídia. Este texto é a sementinha de um artigo científico que está em processo de finalização. 



“Parece que na atualidade estamos vivendo em uma época que o corpo e seu significado sócio-cultural tomaram dimensões inusitadas. A insistente transmissão pelos mais diversos e escorregadios  meios de comunicação de imagens de corpos esbeltos (em mulheres) ou musculosos (em homens) unidas a mensagem de felicidade, êxito e auto-estima fixou, no inconsciente do coletivo a ideia de que o corpo perfeito é sinônimo de vida perfeita.”


A psiquiatria sempre se preocupou com as influências culturais sobre a saúde mental. Até que ponto os hábitos, costumes e valores sociais influem no desenvolvimento das doenças mentais? Em épocas passadas, as grandes comoções histéricas dominavam os sintomas psíquicos, juntamente com as emoções decorrentes do conflito humano, predominantemente no sexo feminino. Eram produzidas crises onde se misturavam teatralidade humana, bruxaria e influências demoníacas. Algumas mocinhas já consideram impossível ser felizes e, ao mesmo tempo, mostrar uma dobrinha na barriga quando sentam. Alguns mocinhos sacrificam boa parte da capacidade de aculturação que a natureza nos deu, em intermináveis e obsessivas horas “puxando ferro” nas academias de musculação. Isso sem contar com a comodidade que algumas pessoas gozam por poderem atribuir a um pequeno excesso de gordura na cintura, a um nariz profuso ou a um seio menos farto, toda a responsabilidade pelos seus fracassos sociais e amorosos. Parece estar havendo uma locação anatômica da felicidade, ora no seio, ora no nariz, ora na balança.
A censura e a vigilância culturais seriam os grandes carrascos da prisão em estreitas calças jeans e a que todos somos submetidos. Mas aí poderíamos parodiar Sartre:

“ Se não podemos ser responsáveis por tudo aquilo que a cultura e a sociedade nos fez, seremos sim muito responsáveis pelo que faremos com tudo aquilo que a cultura e a sociedade nos fez”

Alguns dos reflexos da submissão da felicidade humana ao corpo perfeito, malhado, esculpido e com músculos bem definidos além da anorexia, bulimia e vigorexia são a exclusão social, complexos de inferioridade, submissão “aos tratamentos milagrosos” dentre outros.

Baptista (2004),questiona que se atividade física não é sinônimo de saúde e sim um mito que se perpetua, e que ainda é utilizado no processo de exclusão social e controle da população, qual é então seu objetivo?  A resposta a essas questões pode estar no consumo. As práticas corporais constituem atualmente a chamada indústria  cultural e que apesar de seus benefícios acaba atuando muito mais pelas pedagogias do medo e da culpa, do que pela própria educação em si.
A indústria cultural está fortemente fincada na educação física escolar, deturpando valores e difundindo a moral burguesa. Segundo Lê Breton, “o corpo torna-se a fronteira precisa que marca a diferença de um homem a outro (...) O corpo é o rosto, é o que identifica e nos diferencia dos outros. Trata-se de um dos dados mais significativos da modernidade”. Sendo o corpo do indivíduo que delimita sua soberania.

De forma análoga, no século XVI, enquanto Shakespeare escrevia suas peças de teatro, constatou-se em sua obra trechos em que a gordura era exaltada, atribuindo lhe adjetivos como a confiança. Contrariamente ao que percebemos nos dias atuais, no texto do referido dramaturgo a magreza era representativa de maldade, ambição e uma astúcia que poderia reverter-se em traição. Nesse caso, era a figura magra e adelgaçada que indicava certa dose de ameaça e perigo.
Historicamente falando, quando a comida era escassa e, portanto privilégio dos ricos, a gordura era, de certa forma, sinônimo de saúde e prosperidade, enquanto a magreza sugeria miséria e definhamento. Atualmente sabe-se que uma dieta composta por carboidratos e farináceos é bem menos dispendiosa financeiramente do que o consumo de produtos “diet” e “light”.

Vimos que, aos poucos, a obesidade assume um lugar de diferenciação, chegando aos dias atuais como uma forma de exclusão. Com relação ao julgamento social sobre a gordura, chamamos a atenção para a mais interessante contribuição que o texto de Fischler (1995) nos oferece: a criação de dois tipos fundamentais de estereótipos morais referentes à obesidade.

Nessa classificação, o autor divide os obesos em dois grupos, que variam de acordo com determinados padrões de comportamento, e cujas denominações são obesos benignos e obesos malignos. No primeiro grupo o autor enquadra o indivíduo de comportamento expansivo, extrovertido, brincalhão – o típico gordinho “boa praça”, que parece querer desculpar-se pela inadequação física compensando-a por meio da convivência agradável. Já no segundo figuram as pessoas que se negam a efetuar qualquer tipo de transação simbólica, com vistas a serem socialmente aceitas.
Não havendo qualquer tipo de restituição simbólica que possa despertar a piedade alheia, os gordos são mantidos excluídos, feito parias sociais, pois já não participam das regras do jogo social. Não à toa, na sociedade contemporânea, os obesos são denominados “malignos” ou “malditos” – como no jocoso termo empregado por Fischler. Possuem também um comportamento visto como depressivo, e por isso desprovido da obstinação necessária para a contenção de suas medidas corporais. Enfim, sua imagem demonstra um certo desânimo perante a vida, e traduz fracasso no agenciamento do próprio corpo e dos seus limites.
Em uma sociedade como a nossa, na qual o máximo da valoração social não reside na realização das ideologias/utopias, mas na realização dos projetos individuais, nada mais antipático e que desperte menos solidariedade do que um indivíduo incapaz de empenhar-se no projeto pessoal da boa aparência.


Referências Bibliográficas:

BAPTISTA, T.J.R. Atividade Física como saúde: reflexões sobre conceitos e utilizações. Revista Estudos Viva e Saúde, Goiânia, v. 31, n.1, p. 89-144, jan 2004.

FISCHLER, C. (1995). Obeso benigno, obeso maligno. In: SANT´ANNA, D.B. Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo

ARAUJO, Denise Castilhos de e SCHEMES, Claudia. O corpo e a mídia: análise de uma campanha publicitária.

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